Relacionamentos
Quando o amor encontra os conflitos: desafios e resiliência na vida a dois
Entenda como os conflitos podem se transformar em oportunidades de crescimento na vida a dois e como a resiliência contribui para relações mais fortes e saudáveis.

Por: Emily Medeiros
Ao descrever o processo da escolha conjugal, o psicólogo Thiago de Almeida (2014) destacou a superficialidade das histórias clássicas de amor, que transmitem a falsa ideia de que, após se casarem, as pessoas vivem “felizes para sempre”.
Na realidade, diferentemente do que lemos nessas histórias, observa-se que, em geral, a trajetória conjugal é repleta de situações difíceis. E, como advertiu Souza (2009), uma família não pode ser descrita como normal em razão da ausência de problemas, uma vez que eles fazem parte da vida.
Nesse sentido, observa-se que, no contexto da terapia familiar sistêmica, houve uma mudança da lente da patologia para uma lente mais próxima da resiliência ao longo do tempo.
Resiliência no contexto familiar
O conceito de resiliência começou a ser utilizado quando algumas abordagens passaram a considerar as queixas das famílias por um viés menos patológico e mais otimista.
O termo, que foi emprestado da física, é utilizado para se referir à “capacidade de um material voltar ao estado inicial depois de sofrer pressões ou deformações” (Falceto e Waldemar, p. 99).
Souza (2009) acredita que a resiliência não é simplesmente uma capacidade individual, mas sim um processo dinâmico e inter-relacional capaz de transformar a perspectiva que compreende as famílias diante do estresse como prejudicadas, passando a entendê-las como desafiadas.
Essa mudança de concepção, por sua vez, reafirma o potencial das famílias para a reparação e para o crescimento.
“Além do reconhecimento interno das próprias potencialidades, é necessário que os obstáculos sejam percebidos como desafios a serem enfrentados, o que também já modifica sua visão de mundo. Olhar obstáculos como desafios significa dar algum sentido diferente às situações de crise ou estresse, ressignificar obstáculos e transformá-los em desafios.”
— Souza, 2009, p. 198
Conflitos como desafios e oportunidades
Wagner, Mosmann e Falcke (2019) corroboram essa afirmação. Para eles, qualquer situação difícil no percurso conjugal pode se transformar em um desafio.
E os cônjuges podem lidar com essas situações entendendo-as como uma “crise” ou como uma “oportunidade”. Quando optam pela primeira opção, podem perecer no caminho.
Contudo, ao converter o que se apresenta como desafio em uma oportunidade, o casal pode descobrir aspectos desconhecidos, novas estratégias e alternativas não imaginadas, o que possibilita um novo olhar sobre a situação que antes representava uma ameaça à relação a dois.
Flexibilidade, negociação e resolução de conflitos
Além disso, Wagner, Mosmann e Falcke (2019) apontam dois aspectos fundamentais para que os cônjuges cheguem a um entendimento: a flexibilidade e a capacidade de negociação, buscando atender às demandas de ambos em alguma medida.
As autoras também afirmam que um conflito pode ser encaminhado de várias maneiras e resultar em diferentes desfechos, que dependem de três instâncias:
Do modo como cada um busca resolver a situação, ou seja, de aspectos individuais;
Da interação entre as diferentes estratégias de resolução do conflito utilizadas por cada um;
Das circunstâncias do conflito, como motivo, frequência, contexto e intensidade.
Quando o amor encontra os conflitos
Assim, quando o amor encontra os conflitos, a relação conjugal é convocada a lidar com desafios que fazem parte de sua própria trajetória.
Nessa perspectiva, os conflitos não precisam ser compreendidos necessariamente como sinais de fracasso ou ameaça à continuidade da relação, mas podem constituir oportunidades para que o casal reconheça seus recursos, desenvolva novas estratégias de enfrentamento e construa outras formas de se relacionar.
A resiliência, portanto, não está na ausência de dificuldades, mas na possibilidade de enfrentá-las, ressignificá-las e, a partir delas, favorecer o crescimento e o fortalecimento da vida a dois.
Referências
ALMEIDA, Thiago de. Processo da escolha conjugal sob a perspectiva da psicanálise vincular. Pensando Famílias, v. 18, n. 1, p. 3-18, 2014.
SOUZA, Marilza Terezinha Soares de. Terapia familiar e resiliência. In: OSORIO, Luiz Carlos; VALLE, Maria Elizabeth Pascual do (organizadores). Manual de Terapia Familiar. Porto Alegre: Artmed, 2009, p. 193-207.
FALCETO, Olga Garcia; WALDEMAR, José Ovidio Copstein. O ciclo vital da família. In: EIZIRIK, Cláudio Laks; BASSOLS, Ana Margareth Siqueira (organizadores). O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013. p. 95-109.
WAGNER, Adriana; MOSSMANN, Clarisse; FALCKE, Denise. Viver a dois: oportunidades e desafios da conjugalidade. 2. ed. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2019.



